Solo fértil e produtivo com SAFs: regeneração e sustentabilidade
- Amazon Connection Carbon

- 20 de dez. de 2025
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Num país onde a degradação de solos e a perda de matéria orgânica ameaçam produtividade agrícola e a sustentabilidade do campo, crescem evidências de que as chamadas Sistemas Agroflorestais (SAFs) e os modelos integrados de produção com floresta, lavoura e pecuária podem representar uma mudança de paradigma. A mais recente — e robusta — mostra que, além de diversificar a produção, esses sistemas ajudam a regenerar a saúde do solo, restaurar sua fertilidade e ampliar a capacidade de estocar carbono atmosférico.
O que dizem os estudos recentes
Uma pesquisa publicada em 2025 na revista Applied and Environmental Soil Science — que avaliou sistemas de “crop-livestock-forest integration” (CLFI, equivalente a SAF/ILPF em muitos contextos) — aponta que esse tipo de integração, junto com práticas de plantio sem aração (“no-till”), pode restabelecer o estoque de carbono orgânico no solo (SOC). No experimento, após anos de uso tradicional de solo (arado e monocultura contínua), o solo perdeu até 53% do carbono quando comparado a áreas de vegetação nativa. Já os sistemas integrados exibiram estoques de SOC próximos aos de pastagens mantidas a longo prazo — e bem superiores aos de lavouras convencionais.
O estudo mostra que, ao combinar árvores, culturas agrícolas ou pastagens e técnicas conservacionistas de solo, é possível recuperar a estrutura do solo (formação de macroagregados, estabilidade do solo), matéria orgânica, atividade microbiana e demais atributos que garantem fertilidade, retenção de água e produtividade sustentável.
Além disso, uma análise sobre sistemas silvipastoris (arbustos/árvores + forragem + gado) publicada em 2024 reforça que esses arranjos promovem benefícios ambientais além do solo: sequestram carbono, melhoram a biodiversidade, tornam as pastagens mais resilientes e reduzem a pressão sobre áreas nativas.
Benefícios para solo, clima e produção
Para regiões de solos frágeis — como os do Cerrado, áreas de Planossolo ou terrenos arenosos tropicais — a adoção de SAFs ou sistemas integrados representa uma oportunidade estratégica de conciliar produção com sustentabilidade. Entre os ganhos mais consistentes identificados pelos pesquisadores estão:
Recuperação de carbono e matéria orgânica no solo, essenciais para fertilidade, retenção de água e estrutura física do solo.
Estabilização da estrutura do solo — formação de agregados estáveis e melhor textura, que reduzem erosão e aumentam a capacidade produtiva.
Melhoria da ciclagem de nutrientes e da atividade biológica do solo (microbiota, biomassa microbiana), o que favorece culturas e pastagens mais saudáveis.
Capacidade de manter produção diversificada (grãos, forragem, madeira, pecuária, silvicultura) na mesma área — ou seja, mais renda, mais resiliência econômica, menos pressão para uso extensivo da terra.
Contribuição para mitigação climática via maior sequestro de carbono no solo e na biomassa vegetal, além de maior estabilidade ecológica (diversidade, cobertura, serviços de ecossistema).
Por que o Brasil pode se beneficiar — e por que é estratégico
O Brasil reúne vários fatores que favorecem o uso de SAFs como ferramenta de regeneração, produção sustentável e mitigação climática: ampla diversidade de solos e climas, grandes áreas degradadas, tradição agropecuária e demanda por sustentabilidade ambiental e social.
A adoção de SAFs e sistemas integrados representa, para muitos produtores, a chance de converter áreas degradadas em terras produtivas e saudáveis a longo prazo — com menor dependência de fertilizantes e insumos externos — e de agregar valor ambiental à produção.
Além disso, com o cenário internacional cada vez mais atento à rastreabilidade, à redução de emissões e à sustentabilidade da cadeia produtiva, propriedades que adotam práticas agroflorestais tendem a ficar mais preparadas para atender a padrões rigorosos de mercado, exigências de certificação e demandas por crédito de carbono ou “nature-based solutions”.
Limitações e desafios — o que exige atenção
Apesar dos resultados promissores, pesquisadores alertam que os benefícios dependem fortemente do projeto e manejo adotados. Não basta plantar árvores: devem ser escolhidas espécies adequadas, definidas densidades, respeitado o solo e o clima local, e aplicadas técnicas como mínimo revolvimento de solo, rotação, consorciação e monitoramento.
Além disso, a adoção de SAFs em larga escala enfrenta desafios: desconhecimento técnico entre produtores, custos iniciais de implementação, necessidade de assistência técnica, tempo de maturação dos sistemas e mecanismos de suporte institucional.
Mesmo assim, a evidência científica recente aponta para um caminho claro: com manejo adequado e compromisso, SAFs e sistemas integrados podem devolver ao solo sua fertilidade, proteger paisagens, aumentar produtividade e contribuir com metas climáticas — conciliando produção e preservação.
Solo vivo, produção responsável e futuro sustentável
O solo é o alicerce da produção agrícola. Mas solos degradados, pobres em carbono e matéria orgânica, drenam recursos e inviabilizam produtividade sustentável. As pesquisas mais recentes mostram que os SAFs e sistemas integrados com floresta, lavoura e pecuária não apenas conservam a terra — eles regeneram o solo, restauram sua saúde e garantem rentabilidade com responsabilidade ambiental.
Para o Brasil, com suas particularidades e desafios territoriais, esta pode ser a rota para uma agricultura mais resiliente, competitiva e sustentável. Investir em solo vivo — com ciência, técnica e visão de longo prazo — é investir no futuro da produção e do clima.
Fontes
Jolimar A. Schiavo et al., “Integrated Crop–Livestock–Forest Systems With No-Till Can Restore Soil Organic Carbon Stocks in a Brazilian Ferralsol”, Applied and Environmental Soil Science, 2025. (ResearchGate)
“Quality of soil in crop–livestock–forest integration systems in Sinop, MT”, Universidade Federal de Viçosa, 2014. (Locus)
Silva J.W.T. et al., “Sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta (iLPF): panorama e impactos ambientais”, Ciencia Animal, 2020. (Revistas UECE)
S. Poudel et al., “Silvopastures: Benefits, Past Efforts, Challenges, and Prospects”, 2024. (MDPI)
Revisão sobre integração lavoura-pecuária-floresta e sustentabilidade, 2022. (Alice)



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